domingo, 6 de março de 2011

O Pequeno Vale do Figo


Olá Laurindo, como vão as coisas aí na grande São Paulo?

Bom, aqui no "Pequeno Vale do Figo", elas continuam mais ou menos iguais, exceto pela consolidação de tudo aquilo que já sabemos.

O Pequeno Vale do Figo, com o seu pomposo índice de IDH, e a sua renda per capita acima da média nacional, continua sendo uma ilha da fantasia da pós-modernidade.

Aqui, as mesmas famílias oligárquicas que fundaram a cidade continuam se revezando no poder de tudo o que existe de público e institucional. Prefeitura, Clubes, Associações? Ainda pertencem aos mesmos sobrenomes tradicionais.
Aqui, as mesmas empresas de transporte público e coleta de lixo continuam ganhando a licitação da prefeitura há mais de duas décadas. Alias, essa mesma empresa de transporte, cujo dono já foi até candidato a prefeito pela oposição, oferece até supermercado aos seus funcionários, os fazendo comprar tudo dela. Ou seja, eles recebem o salário, e deixam tudo por lá mesmo.

No "Pequeno Vale do Figo", os dois jornais que existem são governistas. Continuam defendendo o prefeito da cidade, e plagiando reportagens da revista Veja e da Folha de SP.

Por aqui, os condomínios fechados seguem proliferando, a especulação imobiliária e a expulsão dos pobres foi o jeito de enriquecer a cidade. Somos um dos metros quadrados mais caros do Brasil, e a elite paulista de todos os cantos se mudou para cá. Quem não tinha poder aquisitivo precisou sair correndo. No nosso Pequeno Vale, qualquer apartamentinho de 40 metros quadrados custa 150 mil reais. É claro, são feitos para não existir.

A elite do Vale, continua reformando suas mansões de 5 milhões de reais no condomínio fechado, e reclamando do preço e do serviço dos pedreiros, que por sinal, estão em falta. Essa elite famosa e empreendedora, que monta uma Hamburgueria cheirosa e chique, e decide cobrar 20 reais num hamburguer, e 4,50 numa merda de suco de laranja.

Aqui no Pequeno Vale do Figo, o prefeito trocou o letreiro do Parque Municipal, e no orçamento está que isso custou 250 mil reais. Alias, ele continua pintando as mesmas lombadas e guias a cada 3 meses, e todos nós sabemos que a empresa de tinta é de um dos vereadores (vitalício, por sinal).

No nosso Vale, não há mais espaço para carros na rua. Cada família tem 2, 3 ou 4, e decide utilizar todos para ir até a esquina. Continuam tunando os carros, e colocando sons de última geração e potência nos mesmos. E é claro, sempre para ouvir o que todo mundo está ouvindo.

Por aqui, ser Laico ainda é ser Herege. E quem não for católico ou amante do Papa ainda é cerceado pela nossa democracia "Vaticanense". As pessoas continuam sendo solidárias com cachorrinhos, enquanto mandam criancinhas de rua de Campinas irem trabalhar. Ter medo e ojeriza de gente pobre e mal vestida continua sendo a forma básica de cidadania dos que se julgam limpinhos e fingem não jogar lixo na rua.

Aqui, os figurões das ruas desapareceram sumariamente, e os hipongas que vendiam puseirinhas no centro não existem mais. No Pequeno Vale, você só encontra lojas de grife, e nomes das grandes corporações. 

Aqui, quem anda ou circula pelas ruas, e quem fica em rodinha conversando na praça é chamado de "mano" ou marginal.  Por essas bandas, nunca imagem representou tanto. As academias e clínicas de estética também não dão conta da demanda. Atração cultural é o shopping da cidade.

Lembra dos buracos nas ruas mais afastadas do centro? Eles continuam sendo tapados com aquelas pedrinhas que riscam o carro, e com areia e piche vagabundo. De 3 em 3 meses, eles tapam de novo os mesmos buracos de antes, para justificar os gastos de orçamento.

E assim vamos...

Continuamos sendo a Dogville brasileira por excelência.

Capitalismo e Fascismo, uma história de amor.

9 comentários:

  1. alguma coisas mudaram: não vejo mais aquele cara com camisa do AC/DC na rodoviária. Nem a mina com fone de ouvido andando na avenida dos esportes.

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  2. É desses figurões que eu falo.
    O cara do Ac/Dc, o metaleiro, eu ainda vejo algumas vezes. O resto sumiu de repente. Todos.

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  3. e já percebeu que os roqueiros da velha guarda valinhense hoje são pintores e jardineiros servindo essa classe mnaldita de condomínio? meio que uma derrota da classe, sei lá.

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  4. Ahan, percebi sim. Como aquele que pega latinhas e fila uns hot dogs na barraca do Maninho perto da rodoviária. Vejo como a derrota de um estilo de vida. Os caras eram meio punks, meio hippies, meio roqueiros. O sistema os tragou sem dar opção alguma de sobrevivência.

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  5. desculpe a demora pela resposta caro desmanche.
    estava passando por momentos de fúria aqui. terei mais tempo em revê-los. to metendo o pé nos jesuitas. cansei. enfim....
    vc conseguiu descrever tudo do vale dos figos...ri demais aqui.
    mas escuta, qual é o novo monasterio de culto a imagem por ai?
    e aquele coitado q ficava andando pela rua jogando areia nas pessoas?
    ainda acontece aquela tal de festa havaiana? hehehe!!
    genial o texto.
    laurindo...

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  6. Fala Laurindo,
    Agora que pede desculpas pela demora sou eu. Só na correria aqui. Pelo jeito esse ano vai ser mesmo do balacubacu hein!?hahahaha.
    Cansou da galera da Cia. de Jesus é? O espírito do Inácio de Loyola avisou que vc não era católico e lia Nietzsche?
    Bom, aqui no Pequeno Vale a galera que tem carro importado ta andando com ele a 40 por hora, na pista da esquerda, sem dar passagem. Esse é um jeito de mostrar o carro, fazer olharem pra eles, e se vc resolve olhar bravinho, te mandam um olhar do tipo: vc sabe com quem tá falando?
    Esse é o simulacro imagético do momento. Fora esse, os outros 2 trilhões que conhecemos.

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  7. http://br.noticias.yahoo.com/central-das-favelas-rompe-com-organizadores-da-visita-de-obama.html

    viu que linda notícia, caro desmanche.
    viva o povo.
    os comentários dos moradores são ótimos.

    laurindo...

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  8. e ai... os moralistas ainda vão dizer que é culpa do povo? http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/03/25/governo-de-sp-deixou-de-limpar-o-rio-tiete-por-quase-tres-anos.jhtm

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  9. moralistas e falsos formalistas.

    olha, essa coisa da classe média brasileira, e até do povo, de querer se desvincular do povo me irrita.

    daí lá vem o falso formalista: "CULPA DO POVO TBM, Q JOGA LIXO NA RUA".

    como se não fizessem parte do povo, fossem algo a parte e cumpridores rígidos dos estatutos.

    brasileiro vive negando o "jeitinho brasileiro" com relação a si mesmo. E sabe o que é isso??? Outro jeitinho brasileiro.

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