É professora!
Estamos entrando em sala de aula para salvar o Brasil?
O problema da educação é a sala de aula? Ou seja, os professores?
Comecemos pela discussão prática!
Professores de escola pública dão umas 50 ou 60 aulas por semana para sobreviver.
Trabalham em 3 períodos, não comem direito por que não possuem horário de almoço.
Passam de 10 a 12 horas por dia de pé, usam o pouco tempo livre que tem para fazer o trabalho extra-classe.
Depois dessa rotina desgastante, pedem para você utilizar os sábados para fazer cursos de especialização, oficinas de capacitação, e cursos de qualificação profissional. Pedem que você seja criativo, inovador, e revolucionário na elaboração de métodos e materiais pedagógicos que melhorem o aprendizado. Pedem que você dê show, que tenha entusiasmo e sorriso no rosto para entrar em sala de aula animado e cheio de novos recursos multimídiáticos, audiovisuais, bibliográficos, e interdisciplinares para os nossos estudantes. No fim, é como se os professores não tivessem acompanhado a evolução da sociedade. São eles os atrasados, retrógrados conservadores.
Sejamos realistas, não há tempo, estímulo, ou motivação para fazermos nada disso. Até porque, professores são seres humanos, pessoas que possuem familia, filhos, vida social, e que precisam de descanso e lazer. Deveria haver tempo e dinheiro para que pudessemos fazer tudo isso que nos cobram.
Mas a quem queremos enganar? Professores da escola pública não possuem tempo sequer para ler um livro, quem dirá para ver um bom filme, muito menos para estudar ou se atualizar. E quando há tempo, certamente não há dinheiro ou incentivo. Professores de Estado estão sempre esfolados e esfarrapados. Sua imagem cansada e desgastada é um desestímulo para os alunos. É isso mesmo, terminam como a personificação do fracasso e do insucesso.
Nossos professores estão frustrados, deprimidos, desmotivados, sem orgulho, dignidade ou respeito. O que começou com o descaso de toda uma sociedade, terminou no desinteresse generalizado e progressivo dos educadores. Não seria nenhum absurdo dizer que dão aula apenas pelo dinheiro. Alias, pela merreca que ganham. A acomodação, o descaso pela educação, e as artimanhas ou vícios no interior da própria classe profissional, foram uma reação brutal a todo esse estado de coisas. A toda essa cultura de desvalorização do saber e do conhecimento. Professores do Estado, viraram burocratas dadores de aulas.
No Brasil existe uma concepção equivocada, que trata a docência como trabalho voluntário, altruísmo, ou pura vocação. Como se professor aceitasse sofrer e ser desvalorizado pelo simples amor de educar. Somos submetidos a todo tipo de deboche, escarnio e esteriótipos por que gostamos, amamos o que fazemos. Não podemos gritar um palavrão, ou ter um descontrole momentâneo que somos acusados de "nem parecer professores". Uma piada, simplesmente por que nós não somos assim. É fácil descobrir durante a vida em sociedade, que ninguém é assim. Somos profissionais, e não a Madre Teresa de Calcutá.
No fim, a consequência disso são aulas mal dadas, provas mal feitas, baixo padrão de exigência, enganação e negligência de todos os lados. Algo que com relação aos professores, nada mais significa do que uma revolução invertida que diz: "vocês verão o quão inútil eu posso ser".
Competimos contra tudo e contra todos. Contra uma mídia que desinforma, contra os meios de comunicação de massa, contra a indústria cultural, contra a sociedade de consumo. Lutamos contra o nazi-facismo das grandes corporações, da publicidade e da propaganda, e da indústria de relações públicas, que vendem uma falsa noção de realização pessoal. Precisamos competir contra a televisão, contra as pseudo-celebridades e suas opiniões estapafúrdias, contra os jornais e revistas de péssima qualidade.
Haja tempo e disposição para corrigir conceitos e opiniões pré-cambrianas, adquiridas fora de sala de aula, e atribuídas a nós. Quanto tempo tenho com uma classe? 50 mitutos? Uma hora e meia por semana? E depois de tudo isso, somos os únicos culpados pelo surto de burrice institucionalizada na sociedade.
Haja tempo e disposição para corrigir conceitos e opiniões pré-cambrianas, adquiridas fora de sala de aula, e atribuídas a nós. Quanto tempo tenho com uma classe? 50 mitutos? Uma hora e meia por semana? E depois de tudo isso, somos os únicos culpados pelo surto de burrice institucionalizada na sociedade.
Não dá! Peçam para a Xuxa salvar o país. Peçam para o Luciano Huck, o Criança Esperança, a Globo, o Faustão, ou o Pânico na Tv. Peçam para os Jornais, o Datena, e para os participantes do Big Brother Brasil educarem a população. Pessoas mais bonitas, bem sucedidas, e descansadas do que nós. Por que nós estamos vencidos, derrotados, perdemos essa briga há muito tempo. Só faltava admitir. São forças muito poderosas para corpos e mentes tão destruídas e desrespeitadas. São exemplos de sucesso mais valorizados e considerados do que nós. Alias, aqui quero deixar claro que sempre fui imparcial dando aula. Nunca manifestei opiniões políticas ou religiosas.
Temos que enfrentar uma nova geração de pais hipócritas e permissivos que ensinam e incentivam seus filhos a driblar o sistema escolar e agir com anti-ética e falta de cidadania. Pais que depois atribuem toda culpa a nós, e questionam nossos métodos supostamente disciplinadores e autoritários. Como se ainda vivessemos no The Wall (só se for no The Wall ao contrário). Os mesmos pais mimadores que quando percebem que seus filhos cresceram, invertem o discurso e dizem da forma mais cruel possível que eles precisam aprender a se virar. Pais sem senso. Todos querem que seu filho sente de frente para o professor depois que percebem o quanto ele está indo mal na escola. Precisaríamos fazer uns 20 lugares por sala ali. Mas todos pensam: só eu irei pedir. Geração de clientelistas, privatizadores, e consumidores de algo que possa substituir o seu papel de educar.
Mas não quero culpar pais, alunos, professores, pedagogos, diretores. Todos são parte do fracasso de um sistema. Alias, todos são crias e criaturas desse sistema. Digo que o aumento substâncial de salário é fundamental, deve ser a primeira reivindicação e prioridade da categoria, mas que ele não tornará a educação mais interessante. Apesar de torná-la anos luz mais qualificada nos seus objetivos práticos.
Ando de cara com a educação!
Uma pedagogia tecnicista ao extremo, voltada unicamente para a transmissão de conceitos. Conceitos conchavados, resumidos, apostilados e mecanicistas. Conceitos que passam a valer por sua utilidade prática, e sua aplicação concreta e objetiva no mundo do trabalho. Conceitos que de tão sintetizados, não servem mais para pensar, por que não são mais contemplativos. Cursos programáticos e planificados com uma carga tão grande de conteúdos, que tudo é feito para ser dado de forma rápida e superficial, tendo em vista apenas o valor utilitário de cada coisa. O valor prático e lucrativo. Uma utilidade de rebanho, que visa formar indivíduos úteis à sociedade, e uma mão de obra produtiva para reproduzir o sistema. Desde cedo, ensinando pessoas a catalogar coisas, para aumentar a eficiência na execução de tarefas objetivas. De onde não sobrará a transcendência, por que a contemplação dará lugar à inércia, e o estado de coisas parecerá um fatalismo. E neste caminho, vemos a emergência do ensino técnico e dos cursos de formação rápida, já que toda a educação passou a ser voltada para a especialização, a profissionalização, e o tecnicismo. Aprender a pensar, deu lugar ao aprender a fazer. E pior do que isso, pensar de forma condicionada e disciplinada no como fazer. A educação tecnicista, é também disciplinadora dos corpos e mentes.
Uma humanidade toda, sendo suplantada pela mentalidade utilitarista. Um mundo de conformismo, onde escrever um texto como esse é ser freak, e provavelmente demagogo. Numa sociedade que não contempla o que há de humano nas coisas, sem pensar na sua utilidade prática para a estrutura de produção, ou na reprodução acrítica do sistema vigente. E é por isso que a Globo, empresários, o Faustão, o Fantástico e o Jornal Nacional estão tão interessados em discutir a educação. Por que falta mão de obra barata, qualificada e útil para a sociedade continuar girando em suas engrenagens. É por isso que a aula de energia cinética não discute antes o que é energia, e a aula de pré-socráticos é um pout pourri de nomes de filósofos e resumos de 3 linhas sobre a sua obra. Qualquer discussão deve servir unicamente para aumentar a criatividade e a desenvoltura desses trabalhadores, ou dos novos alienados com diploma, enquanto os ensina a produzir em massa e tornar o tempo mais produtivo. Nada vai além da pura aquisição de conhecimentos aplicáveis. Não há mais importância em ensinar o indivíduo a construir uma visão própria e dialética de mundo. Uma vitória do totalitarismo invertido. Vamos investir em educação para formar mão de obra útil.
Por tudo isso, me encontro sinceramente frustrado com a educação. Por que dentre as condições para se ter uma educação de verdade, a escola pós-moderna, neoliberal, privatizadora da vida, e corporativa não está. Sendo assim, suprimo essa educação.
é tão foda e absurdo, que eu não sei o que dizer.
ResponderExcluire cá estou estudando sociais, desejando além de pesquisa me aventurar em uma sala de aula.
é preciso possuir um conjunto vasto de adjetivos para não adoecer psicologica e fisicamente dentro dessa realidade.
Daisy [ blogger com frescura,rs]
Estudamos durante anos para não ter garantia alguma do mínimo que a constituição nos garante: educação, saúde, segurança, saneamento básico. Nossos governantes parecem descompromissados e desinteressados com seu povo. Somente no dia em que tivermos no poder homens e mulheres realmente interessados nas causas públicas é que teremos um país melhor.
ResponderExcluirDepois de ler este texto, só da vontade de sentar
ResponderExcluirnum canto,de cotovelos nos joelhos e chorar, só isso!